Um inimigo. Um alguém.

Um inimigo não é aquele que te destrói, é aquele que te definha. Retira-lhe aos poucos tudo que há em você, devagar, porém impedindo sua regeneração. Bloqueia-te. Leva-lhe tudo que há de bom e de ruim. Aos poucos, tudo devagar. Ele não quer te destruir de uma vez só, não vale a pena. Ele quer ver o sofrimento em seu rosto e em sua alma. Beber cada gota de fel que extrai de você.

Ele tem uma boa razão para te odiar e para te destruir. É uma razão grande, profunda, compacta, complexa. A maioria não entende; apenas alguns, muito silenciosos, que nada podem fazer, entendem todos os símbolos da língua do ódio. Todos saem confusos depois de entrar em suas idéias. Ele sabe também quem pode quebrar a teia de ódio que te enlaça. Um verdadeiro inimigo é sábio e sutil.

Discreto, sabe o segundo exato do minuto exato da hora exata do dia exato para agir. Coloca levemente o pé para você cair. E você cai. Motivo para comemorar? Não, ele apenas sorri, isso nada é. Ele espera um tempo, espera a hora, a Lua, para agir novamente. Você nunca saberá como, quando e onde poderá acontecer. Nem sabe se aquela pessoa foi a que causou o se foi apenas o acaso. Você pode até simular uma falsa cautela, mas cairá de novo. E você começa a ter seu sofrimento extraído.

Aos poucos tudo você perde. Seria apenas uma má fase? Talvez. Por mais que você cresça, você não o vence, as boas notícias são engolidas pela escuridão da desgraça. É tudo uma grande preocupação. O sorriso é agora uma leve risada. Está funcionando, você está se perdendo, e não percebe. A sombra de seu inimigo já é visível, porém é impossível identificá-la com alguém. Essa sombra aos poucos lhe envolve.

A agonia começa a ficar grande demais. As sombras não lhe permitem a visão. A Morte está cada vez mais próxima de você. Ela te quer, ela está a sua espara. Você a quer, você a espera. A sombra de seu inimigo, a Morte, irá lhe dar um beijo mortal. É tudo questão de tempo… Tudo é levado, pouco resta, nem qualidades, nem defeitos escapam. Defeitos para lhe deixar vazio, qualidades para não haver saida. Para te deixar oco.

E por isso ri. Aquela risada está mais forte. O golpe final está sendo dado. E tudo está acabado. A gargalhada é audível no que sobrou de você: nada. Um terrível vácuo te possui. Mas nada lhe atravessa, é um vácuo oco. Nem a Luz lhe atravessa. Nada pode ser iniciado. Você é o fim, e a Morte te ama. Beija-lhe, ama-te. Apenas os verdadeiros inimigos vencem. E tocam violino para celebrar sua vitória…

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